O início de temporada do Cruzeiro em 2016 é irregular e cheio de altos e baixos. Existem motivos para celebrar, outros para lamentar e muitas coisas para corrigir. O técnico Deivid, que começa sua caminhada na função após anos de preparação e estudo, está sendo muito pressionado diante das atuações decepcionantes em alguns quesitos e dos resultados que ainda não empolgam a torcida. No entanto, o ano está apenas começando e a pressão é exagerada e excessiva. É preciso ter calma com o novo treinador e diminuir a corneta.

Afinal, o Cruzeiro mal completou um mês desde seu primeiro jogo oficial em 2016, no dia 27 de janeiro, contra o Criciúma, fora de casa, pela Primeira Liga - lembrando que o torneio é considerado amistoso neste ano. É pouco tempo para um time cheio de modificações em relação a 2015 estar voando. O técnico mudou, vários jogadores chegaram e outros tantos saíram. Alguns nomes importantes chegaram e reforços foram contratados após o início do Campeonato Mineiro. É normal a oscilação, como o próprio Deivid comentou neste domingo, após o empate em 1 a 1 com o América-MG.

"A oscilação já estava no nosso planejamento. São cinco rodadas do Mineiro. Queria que o time estivesse voando, mas, infelizmente, alguns jogadores ainda estão se adaptando ao clube, ao país. Temos de dar um pouco mais de tempo para que eles possam treinar, estar mais à vontade, para termos o time jogando no ideal", afirmou.

(Fotos: Washington Alves/Light Press/Cruzeiro)

"Teoricamente, seriam os três: Cruzeiro, Atlético e América (na ponta do Campeonato Mineiro, que tem o Uberlândia como líder). Mas, nem sempre é assim. É futebol. Empatamos com URT em casa em casa e criticaram. O Atlético perdeu (por 1 a 0, para a URT, no sábado). O Palmeiras perdeu da Ferroviária (por 2 a 1, em casa, no Campeonato Paulista). O Corinthians sofreu para ganhar (do Oeste, no sábado). Temos de ter calma. Queria que o time estivesse voando. Mas futebol não é assim. Você tem de formar grupo, dar padrão, para estar bem na competição", completou.

Deivid está certíssimo em suas colocações. Ainda é início de temporada, o time está se ajeitando, com reforços chegando, jogadores se adaptando e o time sendo formado. O treinador está fazendo o certo, testando nomes e formações táticas. Começou o ano no 4-2-3-1, com três meias, e depois voltou a usar o 4-3-2-1 (4-3-3) que deu certo no fim do ano passado com Mano Menezes, em uma formação que o próprio Deivid trabalhou e ajudou o ex-técnico a utilizar e organizar.

O Cruzeiro melhorou desde então. Recém-contratado, o argentino Lucas Romero ainda precisa de mais ritmo e adaptação, mas está jogando bem e se encaixou no time. Em dois jogos pela Raposa, o volante deu 92 passes. Acertou 90 e errou apenas dois. Além da qualidade para passar a bola, o meio-campista também deu uma dinâmica interessante ao time e faz muito bem a transição defesa-ataque. É um jogador que irá crescer e, consequentemente, fazer a equipe evoluir.

Além dele, também vale destacar Giorgian De Arrascaeta. O camisa 10 uruguaio vive, talvez, seu melhor momento pelo Cruzeiro. É claro que estamos falando do nível técnico e tático baixo do Campeonato Mineiro - apesar das dificuldades naturais vividas pelo time celeste por conta das várias mudanças e início de temporada - mas o meia tem jogado muita bola. Sua evolução e confiança são nítidas. Qualidade técnica, habilidade e enorme talento todos sabem que ele sempre teve, tem e são inquestionáveis, no entanto, ele pareceu um pouco preso em 2015. Neste início de 2016, ele parece mais entrosado com o grupo, o time e solto.

O garoto, que era muito cobrado pelo alto investimento - o Cruzeiro pagou R$ 12 milhões ao Defensor pelo garoto, que foi a segunda contratação mais cara da história do clube (a Raposa ainda deve parte do valor ao time uruguaio, que denunciou os brasileiros na Fifa) - neste ano está correspondendo e jogando muito bem. Nas últimas três partidas, aliás, marcou três gols, na derrota por 4 a 3 para o Fluminense, pela Primeira Liga, e nos jogos pelo Estadual, no triunfo por 1 a 0 sobre o Tricordiano e no já mencionado empate com o América-MG. Para se ter noção, antes da sequência, em 47 jogos, o número 10 tinha nove tentos.

Além dele, vale mencionar Rafael Silva. O atacante que veio do Vasco, um dos reforços para a temporada, começou muito bem e também balançou as redes três vezes. Deivid, inclusive, estuda testar a equipe com ele e Willian no ataque, e está certo. Além de tudo, a hora de testar formações e ver como o time se encaixa é agora, no início do ano, no Campeonato Mineiro e na Primeira Liga, e não durante o Brasileirão e a Copa do Brasil.

Outros nomes interessantes são Élber e Fabiano. O jovem meia, emprestado nas últimas temporadas, tem se destacado com Deivid. Ele já marcou gol, deu assistência e mostrou bom futebol atuando no meio-campo, principalmente quando aberto pelo flanco direito. O garoto pode se tornar uma ótima opção. Enquanto isso, o lateral-direito tem provado que merece ser titular. Mayke, que sofreu um susto recentemente, não está rendendo bem e no nível esperado, enquanto Fabiano entrou bem quando acionado e mostrou melhor futebol, indo bem no apoio, dando segurança defensiva e também se mostrando uma arma interessante nas bolas paradas.

Precisa evoluir

No entanto, é claro que não se deve existir uma paciência exagerada. Nem oito, nem oitenta. A pressão exagerada no início de temporada é um erro gigante. Agora é o momento de Deivid fazer os testes necessários, ainda mais com tantas mudanças, reforços chegando com os torneios em andamento, a necessidade de um tempo de adaptação e encaixe do time, e em torneios mais fracos. É preciso, porém, também ter uma cobrança, contanto que na medida certa.

Uma delas é sobre a defesa. A retaguarda celeste está cometendo muitos erros neste início de temporada e mostrando falta de concentração em alguns momentos, principalmente em momentos cruciais. Nos últimos dois jogos, por exemplo, Dedé precisou salvar uma bola milagrosa no fim da partida para garantir a vitória apertada sobre o Tricordiano, por 1 a 0. No clássico contra o América-MG, porém, a falha geral custou caro. Bryan teve total liberdade para, aos 45 minutos do segundo tempo, acertar um petardo e empatar o duelo. Fábio, adiantado demais, também colaborou.

Outro erro tem sido o ataque. O Cruzeiro, no geral, tem sido melhor que os adversários e criado mais chances, mas desperdiça muitas oportunidades e passa sufocos desnecessários, como foi contra Tricordiano e América-MG, algumas vezes sendo castigado, como contra o Coelho. O time também tende a recuar e tentar jogar nos contra-ataques, mesmo tendo uma vantagem mínima, ao invés de tentar manter o controle do jogo, a posse de bola e tentar matar o confronto com um segundo gol. A frustração da torcida é totalmente compreensível com os erros e o fato de a Raposa ter deixado escapar a chance de liderar o Campeonato Mineiro, e Deivid entende e sabe disso.

"Eu, se fosse torcedor, faria o mesmo (vaiar). Eu venho no estádio, quero ver meu time ganhar e se sofro um gol no fim, saio frustrado. Clássico é assim, se você não faz, o outro faz. É um empate com sabor de derrota, por conta do gol no final", afirmou, após o empate com o América-MG.

"Se você perceber, nós fizemos um primeiro tempo muito bom. Pedi, no intervalo, para a gente atacar, não recuar e buscar o segundo gol. Pedi para a gente tocar a bola, administrar a partida. O América-MG viria para cima e a gente ia ter o controle do jogo, com mais chances para marcar. O América-MG não deu um chute certeiro antes do gol. Acho que a equipe se comportou bem até os últimos 10 minutos e depois não conseguimos controlar o jogo como estávamos fazendo", analisou.

"Administrar o resultado é jogar para frente, controlar o jogo, porque é o adversário que vai precisar do resultado. Eles que vão subir desorganizados e nos dar espaços. Teríamos que aproveitar isso, mas não conseguimos. Acho que a equipe está se comportando bem. Claro que a gente precisa ter mais a bola para controlar o jogo. No finalzinho, faltando dois minutos, não conseguimos segurar a bola e sofremos o gol, o que quase aconteceu na partida anterior (contra o Tricordiano)", explicou.

"Temos que ter maturidade nos jogos. A gente tem que saber jogar com o resultado na mão. No Campeonato Brasileiro, vamos pegar equipes que jogam para frente. Temos que saber administrar a partida. Tem hora que dá, outra hora não. Tem que fazer o adversário correr, então tenho pedido isso. Faz parte, a gente fica chateado, a gente quer vencer. A gente não contenta com pouco, mas agora é trabalhar, porque o jogo não vai voltar. O time evoluiu. É claro que quero mais. Se você perguntar se estou satisfeito, direi que não. Quero ganhar sempre. Quero que meu time jogue por música. Mas, estamos tendo dificuldade nos últimos cinco, 10 minutos, para valorizar a bola", concluiu.

Fica claro que Deivid está percebendo os erros da equipe e tentando corrigir. O problema, é que os equívocos, ao invés de cessarem, estão se repetindo. No entanto, o treinador não deve ser crucificado por isso e a pressão precisa ser menor. Como mencionado, a temporada ainda está no início e o Cruzeiro está muito modificado. Uma grande reformulação foi feita, muitos reforços chegaram e a equipe ainda tenta encontrar sua formação e estilo de jogo ideais. Agora, no começo do ano, em torneios mais fracos, é a hora perfeita para testar opções, errar, corrigir e acertar, visando os principais torneios da temporada.

O torcedor - e também parte da imprensa - precisa ter mais paciência e deixar Deivid trabalhar. Além disso, tenho uma boa expectativa com o Cruzeiro. É claro que tudo pode dar errado e nada encaixar, mas os reforços são interessantes e bons nomes de 2015 foram mantidos. O começo de Arrascaeta é animador, assim como Fabiano e Élber, que podem ser boas opções.

Entre os reforços, Lucas Romero e Matías Pisano me chamam atenção pelo talento e enorme qualidade técnica, e acho que vão se encaixar muito bem, deixando o meio-campo celeste ainda melhor. Rafael Silva é ótima possibilidade no ataque, senão para ser titular, para ser um excelente reserva para Willian, e Alisson também parece estar mais inteiro, algo fundamental, porque seu talento é conhecido e inquestionável. A defesa ainda precisa de ajustes e o time de mais atenção, mas creio que isso será acertado e os zagueiros (principalmente Dedé, Bruno Rodrigo, Manoel e Léo) à disposição de Deivid são bons e já provaram isso anteriormente, enquanto Fábio dispensa comentários. Acredito que a Raposa pode ter um bom ano em 2016, mas é preciso ter calma e deixar Deivid trabalhar.


Fonte: Olé do Brasil.