14/03/2016 - 12:46
Rival do Grêmio convidará Papa para bênção a "volta para casa" em 2017
Torcedor do San Lorenzo, Papa Francisco dará nome ao estádio que será construído na área que pertencia ao clube antigamente, no bairro de Boedo, previsto para 2019
"Venho do bairro de Boedo, bairro de murga e carnaval". A música entoada nas arquibancadas do Nuevo Gasômetro constantemente faz lembrar que o San Lorenzo pertence a um espaço que não é mais seu. Ou melhor, não era. O retorno do clube a Boedo, acertado com o supermercado Carrefour, que está na área onde era o Viejo Gasômetro, está cada vez mais próximo de ser sacramentado. Tanto que já há no clube a ideia que o Papa Francisco venha a Buenos Aires para dar a bênção no novo velho local em 2017. O retorno tem participação ativa da torcida do Ciclón, que quer retomar o caráter social do clube.
O convite ao Papa Francisco parece quase óbvio pela relação do clube com um dos seus torcedores símbolos. A imagem do chefe da Igreja Católica está pintada, por exemplo, na sede dos "Corvos" em Boedo, ao lado do supermercado que vai dar lugar ao futuro Estádio Papa Francisco. Por isso o convite a Jorge Mario Bergoglio é quase obrigação. A intenção é que ele esteja em 2017 no local para dar sua bênção ao retorno do clube às origens.
Papa Francisco dará nome ao estádio e está pintado na sede (Foto: Eduardo Moura)
– É como perder a casa do teu pai e lutar a vida toda para voltar. E se teve o sonho de fazer. Tem um efeito emocional, anímico, uma utopia. Muitas pessoas foram comprando metros quadrados simbólicos de toda parte do mundo. No mesmo momento o clube se ajeita, ganha competições... É uma coisa como o Grêmio aproveitar a quebra da construtora e voltar para a sua área. Sei que não vai acontecer, a Arena está muito boa – diz o vice-presidente do San Lorenzo, Roberto Alvarez, ao GloboEsporte.com.
O bairro abriu os primórdios do Ciclón. O azul e o vermelho pintados em pequenas barreiras metálicas para evitar carros denunciam a identificação com o San Lorenzo. É lá, por exemplo, que está a sede do clube e que está sendo construído um ginásio poliesportivo. É também andando pela avenida La Plata que se vê as cores vermelho e azul em diversas portas, lembrando as glórias do San Lorenzo, campeão da América em 2014 e que enfrenta o Grêmio às 21h45 de terça.
Andando pelo local, é possível perceber o caráter residencial do bairro. Muitas casas se amontoam, pessoas passam tranquilas, sem pressa. A maioria, porém, não quer falar sobre a volta do clube ao bairro – a justificativa é impossibilidade de prever o que ocorrerá. Diferente de Bajo Flores, onde está o estádio Nuevo Gasômetro, é considerado um bom bairro em Buenos Aires.
Projeto do Estádio Papa Francisco, futura casa do San Lorenzo
(Foto: Reprodução)
Projeto surgiu há quase 20 anos
O acordo com a multinacional francesa ainda não está assinado, mas já foi celebrado pelo presidente Matias Lammens nas redes sociais, há menos de três meses, quando houve a resposta positiva à proposta do clube. Tão logo assine, o San Lorenzo precisa repassar 110 milhões de pesos, cerca de R$ 22,5 milhões, para a empresa pela área, que tem 18 meses para deixar o local e construir outra loja, na ponta do terreno. Outros R$ 15 milhões, arrecadados com a torcida, já foram adiantados ao proprietário da área onde se erguerá um moderno estádio. Que pode, inclusive, ostentar o nome do supermercado em sua fachada, como uma parceira na construção, prevista para acabar em 2019.
O chefe de imprensa da Subcomissão dos Torcedores, que teve papel importante de mobilização na volta a Boedo, conversou com o GloboEsporte.com – se revelou, inclusive, um admirador da Arena do Grêmio, com a intenção de visitá-la. Justamente dentro do supermercado, onde Marcelo Culotta jamais havia entrado, pelo caráter simbólico do gesto. Ele é figura conhecida dos chefes da segurança do supermercado – já houve diversas reuniões após manifestações da torcida no local e em outras lojas. No dia mais crítico, 20 delas fecharam as portas em Buenos Aires.
– A luta começou em 97, foi quando começou a se falar e cogitar uma volta a Boedo. Acontece que saímos daqui por uma pressão da ditadura militar. Havia leis que falavam que era necessário abrir o terreno para alongar duas ruas, o que cortaria a área em quatro. Alguns dirigentes, pressionados pela ditadura, compraram a ideia de sair de Boedo – explica Culotta ao GloboEsporte.com
Marcelo Culotta veste a camisa e foi peça-chave em mobilização (Foto: Eduardo Moura)
A ida para Bajo Flores, bairro onde fica o Nuevo Gasômetro, ficou definida em 79. A última partida do estádio antigo foi um clássico com Boca Juniors, empatado em 0 a 0. Por 13 anos, o San Lorenzo permaneceu como um nômade, rodando por casas como o Monumental de Nuñez, do River Plate, e o Monumental de Madeira, como é conhecido a casa do Ferro Carril. Até mesmo o Huracán, que é o rival "de morte" do San Lorenzo, cedeu sua casa.
A volta passa muito por uma mobilização da torcida e da diretoria do clube. O sentimento de pertencer ao bairro é determinante. A música do início do texto diz tudo. Para o torcedor gremista entender: é como se o Tricolor resolvesse deixar o Humaitá e voltar para a Azenha. Por sinal, nas arquibancadas da Arena também se houve a mesma sinfonia: "Venho do bairro da Azenha, casa do Monumental". Talvez por isso a lembrança de Alvarez.
O clube dividiu a área que foi adquirida – são 35 mil e 600 metros quadrados – para que cada torcedor pudesse comprar 1 metro quadrado. Com base na avaliação do terreno há quatro anos, que dizia que o espaço valia 94 milhões de pesos (R$ 47 milhões), dividiu-se o valor pela metragem. O torcedor corvo pode pagar 2.880 pesos para um plano de fidelização e ajudar na compra da área. São mais de 24 mil torcedores que usaram o expediente, com aporte referente a 29.800 metros quadrados. Depois, o clube terá de repassar mais 1 milhão de dólares por ano para a empresa entre 2017 e 2020.
Supermercado fica rodeado por prédios do San Lorenzo
(Foto: Eduardo Moura)
Apelo social para convencer comunidade
Alguns vizinhos do bairro ainda estão reticentes com a ideia de ter um estádio por ali. Um senhor, que preferiu não se identificar, disse, antes de sair andando:
– O estádio não é ruim. O que é ruim são as pessoas que vão ao estádio.
Cortutta também admite que há uma parte da comunidade de Boedo descontente com o projeto. Mas a ideia para que eles seja convencidos de que a volta para casa do San Lorenzo é boa é justamente resgatar o caráter social que o clube tinha para o bairro. Eram mais de 40 modalidades de esportes disputadas no local, com 50 mil sócios em 1940 – hoje, são cerca de 60 mil.
Falta pouco para que a assinatura esteja no papel e o San Lorenzo, enfim, volte a Boedo – a previsão é que nos primeiros dias de abril ela ocorra. A cautela ainda existe. Assim como a excitação por concretizar o sonho. Por enquanto, o Ciclón ainda tenta amedrontar os rivais, como o Grêmio, no Nuevo Gasômetro. É lá onde o Tricolor terá que brigar por pontos para que deixe a Argentina na briga pela classificação às oitavas de final da Libertadores.
Sede da subcomissão da torcida fala de outros estádios
(Foto: Eduardo Moura)
Fonte: Olé do Brasil.





